domingo, 10 de novembro de 2013

Textos de um Esquecido #009: Teatro sentimental.

Eu nunca disse eu te amo
sim, nunca!
não do jeito que deve ser dito
eu dizia de uma maneira vaga
como quem não quer dizer nada
e está sendo obrigado
ou como se pensasse que diria
e saísse apenas “não te amo , só quero te comer”
sabe?
não tenho jeito pra essas coisas
não assim.
e não me culpe por isso
pois eu também não me culpo
se eu nunca disse eu te amo
é por que eu estava apenas deixando a situação mais divertida
empatando o placar
pois apesar do melodrama pós-psicopata
eu sentia que no fundo daquele discursinho
existia apenas um vazio, um imenso vazio
e eu estava  retribuindo na mesma moeda
o que me era oferecido de bom grado
(Risos)
não penso em mim como uma pessoa malvada
não
não me acho assim
afinal eu fazia tudo direitinho
todos os movimentos
as caras de desejo
as preliminares .
nosso sexo era insano
não importava onde estávamos quando a vontade vinha
todo lugar era oportuno
bastava um jeitinho e dava certo
ele parecia um animal
uma pessoa morrendo de sede na frente de um copo d’água
um cachorro a encarar um pedaço de carne
e eu é claro, era a carne a ser devorada
nessas horas ele não era o melodramático de sempre
era algo violentamente animalesco
o que me fazia duvidar mais ainda dos seus “sentimentos”
mais não vou mentir e nem ser hipócrita de negar que eu gostava
adoro uma carinha de santo contornando violentamente um desejo
como adorava o jeito como ele me pegava
como se fosse um escravo sexual
que deveria fazer seu trabalho.
é, definitivamente eu gostava
e até fumava um cigarro depois do ato.
só fazia com ele o que eu achava que ele merecia
mas o que merece um melancólico
se não sofrer ?
o que é mais divertido que isso ?
me divertia e fazia uma boa ação
quem sabe até ganho um premio de bondade do ano.
(risos)(parada súbita)
(pausa para um cigarro)(uma tragada)(recomeça)
Não levei isso muito longe
quis parar quando comecei a achar as coisas repetitivas
tenho fobia a repetições
e o seus melodramas já não me rendiam tantos poemas
apenas cansaço mental
e mensagens que eu não lia
tava na hora de acabar com aquilo
e cansado de tudo
resolvi inventar historias
disse que
o problema não era ele
era eu
existia outra pessoa na historia
um amigo.
provoquei lagrimas
tristezas e chateações
mas é o que deve ser feito
quando não existe mais nada
e ainda mais se não existia amor.
mas se posso tranquilizá-lo de alguma maneira depois de tudo isso
se posso limpar a ferida depois da facada sangrenta
digo a ele que gostava
que me agradava as medidas que via
quando seu corpo estava sem roupas
que era grande e intenso
que via poesia
na sua loucura usual
na forma obsessiva que desejava o meu corpo
que era arte o nosso desamor
e que era carnal
o nosso teatro sentimental.


- Ives Valente.

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